Racismo nas empresas: tudo o que você precisa saber

racismo nas empresas

Ano passado foi marcado não só pela pandemia. Episódios de racismo nas empresas e violência contra pessoas negras também marcaram 2020. Em junho deste ano o mundo se revoltou com o caso do George Floyd, homem negro que foi sufocado por um policial branco até a morte em Minnessópolis (EUA).

O caso foi marcado por manifesta√ß√Ķes em v√°rios pa√≠ses. Pessoas negras foram √†s ruas com os cartazes ‚ÄúBlack Lives Matter‚ÄĚ, aqui no Brasil “Vidas Negras Importam“. Mas as manifesta√ß√Ķes n√£o foram s√≥ nas ruas.

Durante este per√≠odo a internet dividiu opini√Ķes sobre o assunto. As empresas n√£o ficaram de fora, e grandes marcas se posicionaram a favor da causa.

Muitas empresas fizeram posts em redes sociais questionando a conduta do policial, afirmando que, sim, vidas negras importam. Outras empresas foram al√©m dos posts e doaram dinheiro para institui√ß√Ķes ligadas √† causa negra.

Esta medida √© conhecida como ‚ÄúAtivismo de marca‚ÄĚ. Mas ser√° que as empresas realmente est√£o engajadas na causa? Ou apenas visando o lucro? O racismo nas empresas ainda √© muito presente.

Em uma entrevista ao Roda Viva, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, afirmou que não dá para contratar profissionais negros para trabalhar no banco pois o nível de exigência da empresa é alto. Contratando esses profissionais o nível da empresa irá baixar.

A fala da cofundadora do Nubank repercutiu mal nas redes sociais. O Nubank publicou uma carta pedindo desculpas pela declaração racista da Cristina Junqueira. Na carta, o banco afirma que tomará medidas de reparação histórica e combate ao racismo dentro da empresa.

O pensamento de que profissionais negros n√£o s√£o t√£o capazes de gerir equipes, por exemplo, como outros profissionais, ainda √© uma quest√£o presente. O racismo nas empresas precisa ser debatido n√£o s√≥ com RH, mas com as diretorias das institui√ß√Ķes.

 

O que é racismo e como ele se manifesta nas empresas?

Para entender como funciona o racismo nas empresas, é importante entender o conceito de racismo estrutural. Mesmo depois da abolição da escravatura, a população negra teve seus direitos negados e pouquíssimo acesso à educação.

Segundo dados da Pnad 2019 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), em 2018, o tempo médio de estudo de pessoas com 25 anos ou mais era de 10,2 anos entre brancos (10,1 anos para homem branco e 10,4 anos para mulher branca) e 8,3 anos entre pretos ou pardos (8,1 para homens pretos ou pardos e 8,6 anos para mulheres pretas ou pardas).

Gra√ßas √†s pol√≠ticas afirmativas, esses dados v√™m mudando aos poucos. Prouni, Sisu, Fies e cotas raciais s√£o alguns exemplos de pol√≠ticas p√ļblicas que est√£o incentivando o ingresso dessa popula√ß√£o no ensino superior, por exemplo.

Segundo o relat√≥rio Desigualdades Raciais por Cor ou Ra√ßa no Brasil, divulgado pelo IBGE em 2019, informa que a propor√ß√£o de jovens negros de 18 a 24 anos no ensino superior passou de 50,5%, em 2016, para 55,6%, em 2018. O levantamento mostrou que a propor√ß√£o de pretos e pardos cursando o ensino superior em institui√ß√Ķes p√ļblicas foi de 50,3% em 2018.

√Č importante entender que o racismo n√£o √© apenas institucional, o problema n√£o est√° apenas nas institui√ß√Ķes. Como vimos nos dados anteriores, as oportunidades s√£o negadas para as pessoas negras e com pol√≠ticas de inclus√£o conseguimos mudar o cen√°rio.

Todo o racismo √© estrutural porque o racismo n√£o √© um ato, o racismo √© processo em que as condi√ß√Ķes de organiza√ß√£o da sociedade reproduzem a subalternidade de determinados grupos que s√£o identificados racialmente

‚ÄĒ Silvio Almeida¬† ¬†¬†

 

Silvio Luiz de Almeida √© advogado, fil√≥sofo e professor universit√°rio. Silvo √© autor do livro ‚ÄúRacismo estrutural‚ÄĚ, al√©m de ser presidente do Instituto Luiz Gama.

Segundo o Pnadc 2019, o n√ļmero de pessoas negras desempregadas no Brasil √© quase o dobro que a de pessoas brancas. Das 12,8 milh√Ķes de pessoas que estavam desocupadas no primeiro trimestre do ano, mais de 8,2 milh√Ķes se identificam como pretas ou pardas, o que representa 64,2% do total.

Quando esses profissionais são contratados, eles não são considerados da mesma foram que profissionais brancos. Uma pesquisa realizada pela Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial aponta que profissionais negros ocupam apenas 6,3% dos cargos de gerência em 23 grandes empresas nacionais e multinacionais.

No entanto, nos cargos de aprendizes, estagiários e trainee encontram-se uma maioria negra. 

Além dessa diferenciação, quando um negro possui o mesmo cargo que um colega branco, ele ganha menos. A diferença salarial entre negros e brancos é de 48%. Para as mulheres negras pode chegar a uma diferença de até 70% para o mesmo cargo e função.

 

Racismo nas empresas: o caso Magalu e Nubank

A empresa Magazine Luiza (Magalu) abriu edital de vagas exclusivas para pessoas negras no final de setembro de 2020. A ação gerou polêmicas, alguns, inclusive, acusaram a empresa de racismo reverso. O que, judicialmente, não se enquadra como racismo.

As den√ļncias contra a empresa foram indeferidas pelo Minist√©rio P√ļblico do Trabalho. O √≥rg√£o concluiu que a decis√£o da empresa se trata de um caso de repara√ß√£o hist√≥rica e n√£o de uma viola√ß√£o dos direitos trabalhistas alegado por alguns denunciantes.

A decis√£o da empresa se deu pelo fato de que 53% dos seus funcion√°rios s√£o pretos ou pardos, mas apenas 16% ocupam cargo de lideran√ßa. ‚ÄúO alerta despertado por essa baixa participa√ß√£o fez com que o Magalu¬† decidisse atuar, oferecendo oportunidades para quem ainda est√° come√ßando a carreira‚ÄĚ, diz o comunicado do trainee.

Este tipo de processo é legal, previsto no MPT. Qualquer candidato/a com formação no ensino superior pode participar. Conhecimento da língua inglesa e experiências anteriores não são exigências, afinal, como vimos nos dados, nem sempre pessoas negras têm a oportunidade de aprender outros idiomas e tem mais barreiras para serem contratadas.

Na seleção do Magalu, puderem se inscrever pessoas de todos os estados, desde que tivessem disponibilidade para se mudar para São Paulo. Caso o candidato fosse selecionado e fosse fora do estado, receberia um auxílio mudança.

O processo foi divido em seis etapas:

  • teste online,
  • grava√ß√£o de um v√≠deo de apresenta√ß√£o profissional,
  • entrevistas com RH
  • entrevista com os diretores da √°rea
  • conversa com a Diretoria Executiva
  • conversa com a CEO da empresa.¬†

Esse caso do Magalu é importante para analisarmos como existe racismo nas empresas. Diferente da empresa, Nubank se mostrou despreocupado com a pauta. Como já dito aqui, a cofundadora Cristina Junqueira disse em entrevista que abrir esse tipo de processo seletivo não seria vantajoso para a empresa.

Um processo seletivo de a√ß√Ķes afirmativas tem outra din√Ęmica. Justamente por uma quest√£o hist√≥rica. S√£o outras exig√™ncias e outra an√°lise, como foi no caso do Magazine Luiza.

Se uma empresa, ao te contratar, acredita que voc√™ n√£o est√° no n√≠vel, seu sal√°rio provavelmente ser√° mais baixo? Uma pessoa branca com mesmo cargo ser√° mais prestigiada? E se uma pessoa negra n√£o tem as mesmas qualifica√ß√Ķes que uma pessoa branca, como outro idioma, por exemplo, qual √© a sa√≠da?

O racismo não é sobre se esforçar ou se dedicar menos, são sobre direitos negados e portas fechadas. Para mudar esse cenário, as empresas precisam adotar medidas combativas. 

O Nubank veio a p√ļblico pedir desculpas pela fala da Cristina Junqueira, prometeram tomar medidas em prol da causa, conversar com especialista sobre o assunto e uma agenda contra o racismo.

No entanto, a pauta foi levantada, pois repercutiu mal nas redes. As empresas precisam estar preocupadas com racismo sem ser por medo de perderem clientes. Não é uma pauta negociável.

Mas como ser uma empresa antirracista? Como apontar o racismo nas empresas? Ser antirracista precisa de estudo e análise. Acompanhe no próximo tópico como ser combativo.

Como ser uma empresa antirracista

Você sabia que a diversidade é rentável para as empresas? Um estudo da consultoria McKinsey, feito em diversos países, inclusive o Brasil, mostra que companhias com diversidade cultural e étnica tiveram desempenho financeiro 36% maior em 2019 que aquelas que não têm tais políticas.

Um outro ponto √© que a maioria da popula√ß√£o no pa√≠s √© negra e o seu consumidor faz parte desta parcela da popula√ß√£o. Segundo o IBGE, 55,8% da popula√ß√£o √© negra no Brasil. De acordo com Instituto Locomotiva, este p√ļblico movimenta R$ 1,7 trilh√£o por ano.

√Č interessante para empresa que uma pessoa que entenda do p√ļblico esteja num cargo de lideran√ßa, certo? Uma pessoa negra ocupando esse lugar siginifica tamb√©m uma pessoa que representa compartamentos, culturas e hist√≥rias dos consumidores, que em sua maioria s√£o negros.

Além disso, o novo consumidor é mais atento a causas sociais. Como vimos no caso do Nubank as redes sociais são uma poderosa arma e a reputação das empresas está em jogo. O consumidor se sente mais conectado e valoriza as empresas que se preocupam com a diversidade. 

Mas para entender o racismo nas empresas e combater essa pr√°tica √© preciso pensar em pol√≠ticas nesse sentido. Posts em redes sociais s√£o as a√ß√Ķes mais simples nesta luta. Por isso, vamos te mostrar quatro dicas para incentivar a igualdade racial dentro da sua empresa.

 

Definir metas, prazos e indicadores sobre desigualdade racial

O primeiro passo √© fazer o ‚Äúteste do pesco√ßo‚ÄĚ, ou seja, olhar para os lados e analisar quantas pessoas negras trabalham na empresa . Dependendo do resultado, √© hora de pensar num processo seletivo exclusivo para essa popula√ß√£o.

Feito isso, o pr√≥ximo passo √© a an√°lise dos sal√°rios e cargos. Esses profissionais negros que trabalham na empresa recebem o mesmo sal√°rio que os colegas brancos? √Č importante observar quais s√£o os cargos ocupados pelas pessoas negras na empresa. Existem lideran√ßas negras? Estagi√°rios negros s√£o contratados? Ap√≥s essa s√©rie de questionamentos, √© hora de colocar metas e objetivos para mudar o cen√°rio, caso seja necess√°rio.

 

Ensinar aos funcionários o que é racismo e como combatê-lo

Para combater o racismo é necessário falar sobre ele. As empresas antirracistas precisam adotar uma agenda de conscientização. Chamar especialistas sobre o assunto e mostrar na prática como alguém pode estar sendo racista. Ensinar o que é racismo, como é reproduzido e como deve ser combatido.

Essas din√Ęmicas n√£o devem acontecer apenas durante o m√™s de novembro, ok? O ano todo √© necess√°rio debater sobre o assunto.

 

Recrutar funcionários fora do seu círculo social

√Č importante que as empresas tenham consci√™ncia que para ter mais diversidade em seu quadro de funcion√°rios, √© necess√°rio buscar candidatos fora do c√≠rculo social. Se as empresas continuarem buscando o mesmo perfil profissional, v√£o continuar contratando sempre as mesmas pessoas.

N√£o basta um anuncio no Linkedin, √© preciso ir al√©m. Em S√£o Paulo, por exemplo, h√° a Unipalmares, uma universidade voltada para o p√ļblico negro. Al√©m disso, existem institutos, organiza√ß√Ķes e movimentos que podem ajudar a divulgar a vaga para um p√ļblico fora desse c√≠rculo.

 

Criar políticas de inclusão para colaboradores negros

Ao contratar uma pessoa negra, a empresa precisa estar ciente do racismo que ela possa vir a sofrer. Para isso, é necessário preparar as equipes antes através de uma agenda antirracista. Ser antirracista não é apenas contratar uma pessoa negra, é entender a realidade que ela vem e saber que o racismo nas empresas existe.

Se, infelizmente, um profissional negro sofrer racismo, o RH precisa estar preparado para lidar com a situa√ß√£o. Essa prepara√ß√£o n√£o √© apenas para as equipes, mas tamb√©m para o RH das empresas. Essa profissional precisa se sentir acolhido e acima de tudo respeitado. Uma ouvidoria interna pode ser um canal de comunica√ß√£o seguro e eficaz para lidar com essas situa√ß√Ķes.¬†

E a sua empresa, est√° preparada para discutir sobre racismo? Compartilha com a gente a sua experi√™ncia nos coment√°rios desse post. Se voc√™ gostou do artigo, compartilha ele nas redes sociais. ūüėČ

*Artigo escrito por Beatriz Bento.

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