[Feedz Writer] Qual a contribuição de uma engenheira em um RH Estratégico? – Por Carla Monich

+ Sobre Carla Monich
Engenheira focada em Inovação, Gestão Estratégica e Desenvolvimento de Talentos na área de Construção Industrializada

 

Queria trazer neste primeiro artigo um pouco da minha trajetória pessoal na área de RH Estratégico, para mostrar a contribuição de trajetórias diversas e profissionais múltiplos neste setor.

Em 2013 a revista Exame publicou a reportagem “Conheça o novo profissional de RH”, onde apontava que ser um profissional de recursos humanos se tornava uma tarefa cada vez mais complexa. Se antes era necessário apenas conhecer os processos burocráticos, como folha de pagamento e recrutamento e seleção, naquele momento passou a se observar que era preciso também dominar a linguagem dos negócios, pensar adiante e atuar em parceria com as lideranças da empresa. Isso traz um olhar para a equipe de RH além de psicólogos, tecnólogos em recursos humanos e pedagogos. A nova realidade (de sete anos atrás), abria as portas para as mais diferentes formações: engenheiros, advogados e administradores atuarem estrategicamente na área responsável por trazer uma visão de processos a gestão de pessoas.Isso porque a necessidade de o RH atuar estrategicamente modificou o perfil do profissional desejado pelo mundo corporativo.

Há 10 anos atrás me graduei em Engenharia Ambiental, curso que escolhi aos 18 anos pelo impacto positivo que queria trazer para a sociedade. Ansiosa para trabalhar com projetos tangíveis, emendei um mestrado em Engenharia da Construção Civil, com foco em Gestão e Sustentabilidade. Descobri neste uma grande paixão por construções mais eficientes e sustentáveis que utilizavam madeira como elemento construtivo, fui trabalhar na indústria ligada ao segmento e passei por áreas técnicas, do Lean Manufacturing ao SSMAQ (Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade). Na sequência, entrei em uma jornada de 4 anos focada em trabalhar com Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação na Tecverde, uma Scale up que atua como Indústria e Construtora, e passei 1 ano fazendo job rotation na área de Engenharia de Processos. Então veio o convite da empresa para implantar uma área de Gente & Gestão (G&G). Esse parágrafo, que mais parece um resumo postado no LinkedIn do que o início de um artigo, é para mim a síntese de onde eu vim e o porque abracei com tanto carinho este projeto.

Próxima de celebrar 10 anos no final de 2018, a Tecverde sentiu a necessidade de dar o próximo passo na área ligada a gestão de pessoas. Na época, contava com 80 colaboradores e um Departamento Pessoal formado por 2 (hoje em G&G somos uma equipe de 10 em um time de 200 colaboradores). Sei que neste momento, alguns leitores vão se espantar com o fato de uma empresa ter ficado tantos anos sem um departamento de G&G, mas a publicação “Máquina de Talentos” realizada pela Endeavor em 2019, aponta que o tempo médio das Scale ups entrevistadas ficarem sem uma área dedicada de G&G é de 7,7 anos. Este projeto era um grande desafio e justo por ter trabalhado por 5 anos em diversos projetos e áreas na empresa, entendia a importância estratégica do mesmo. Só tinha um grande fator, eu NUNCA havia trabalhado com RH ou em uma empresa com um RH Estratégico implantado.

Para me preparar para o desafio, trouxe para o projeto a bagagem da engenharia: estudar o assunto, focar no planejamento, preparação, disciplina, implantação de gestão de projetos e processos, parametrização e prestar muita atenção aos detalhes. Aproveitei ao máximo o último trimestre do MBA que estava fazendo que era focado em gestão inovadora de pessoas, entrei de cabeça em uma formação de Coaching com Programação Neurolinguística, fui buscar benchmarks no mercado, participei de eventos da área e fui entender as diversas nuances que compõem este setor incrível.

No fim do ano passado, após quase 1 ano atuando na área de RH Estratégico, fui fazer um curso de People Analytics e me senti em casa e ansiosa pelo futuro do setor. No curso, vi que temas que são novos a muitos profissionais da área, como análise de macroprocessos, gestão estratégica, dashboards e KPIs, vieram na minha bagagem para o RH e em novos temas como a integração do Analytics ao RH, vejo a engenharia se integrando a esta área que mistura disciplinas de humanas com sociais aplicadas. Hoje não me sinto mais um peixe fora da água e aprendi que se a mente é de engenheira, a alma já é de RH e os ganhos que este mix trouxe para mim e as contribuições que eu pude trazer para a função. Muito além de trazer novos conhecimentos e experiências para a minha trajetória profissional, esta jornada me impactou no nível pessoal.

Descobri um mundo novo, novas aptidões e me desenvolvi como gestora e como pessoa. Neste ano de 2020, temos 6 grandes projetos estratégicos em implantação e sinto a contribuição tangível do que trouxemos nos últimos 14 meses para os principais clientes da empresa, nossos colaboradores.

A minha trajetória não é única, quanto mais estudo o tema, encontro vários engenheiros que começaram em áreas técnicas e migraram para o RH Estratégico, como Beth Galetti (Amazon), Camila Almeida (Azul Linhas Aéreas), Marcelo Nóbrega (McDonald’s) e Ricardo Khauaja (Whirlpool). E acredito que em um futuro focado em transformação cultural, digital e multidisciplinariedade, profissionais de formações diversas serão cada vez mais comuns e necessários.

 

O que aprendi até o momento neste processo:

• Uma área de G&G deve ter um time múltiplo e diverso – na nossa equipe temos pessoas formadas em administração, recursos humanos e segurança do trabalho, mas também em engenharia de produção, qualidade, edificações e informática, e o mais importante: apaixonados pelo o que fazem.

• Em uma empresa focada em construção civil, onde 9 dos 10 diretores e gerentes possuem formação em engenharia ou arquitetura, um gestor de RH com background técnico possui mais facilidade para atuar como ponte entre os diferentes setores. Acredito ser possível estender este paralelo para diversas outras indústrias.

• Oportunidades de inovar! Quanto mais estudo sobre o assunto e converso com profissionais da área, mais entusiasmada fico com as oportunidades de inovação que temos na área de RH Estratégico!

• Se você nunca trabalhou em um determinado setor, você pode se sentir mais à vontade para questionar e buscar executar os processos tradicionais de uma maneira diferente.

• Existe um mundo de “engenharia de sistemas de RH”: planejamento de gente, sistemas de avaliação e desempenho, aprendizado, gestão da sucessão, integração e treinamentos, gerenciamento de carreira e remuneração, entre outros.

• A equipe de RH Estratégico possui hoje alguns desafios que vão além daqueles que a formação de recursos humanos traz: análise de dados, implementação de novas ferramentas de software complexas, desenvolvimento de lideranças, visão holística e entender o papel da mudança de tecnologia. Ter um engenheiro na equipe, pode auxiliar (e muito) na preparação, implantação e disseminação destes processos junto ao resto do time.

• A compreender o que o autor Josh Bersin (especialista em RH corporativo, aprendizado e gestão de talentos) fala: “Em todos os aspectos de nossas vidas, há uma troca entre profundidade (especialização) e amplitude (perspectiva). Ao focar e desenvolver o conhecimento, você aprende a alavancar seus pontos fortes, adiciona quantidades cada vez maiores de valor e pode criar a sua identidade. Mas, como muitos estudos mostram, é a combinação de profundidade e amplitude que importa. Embora tenhamos que ser especialistas em uma coisa, também temos que ser generalistas em muitas. E, à medida que o RH se torna mais um trabalho de experimentar e desenvolver soluções, não apenas copiando as soluções de outras empresas, essas habilidades híbridas são mais importantes do que nunca”.

 

Aos meus colegas de profissão, com formações específicas na área e anos de experiência, meu muito obrigada a todos que me receberam em suas empresas, trocaram experiências e informações e me auxiliaram a entender este mundo novo. Foi no entusiasmo que recebi de tantos ao compartilhar a minha jornada, que percebi que poderia implantar algo diferente e alinhado à cultura da empresa.